O dengue é transmitido pela fêmea do mosquito Aedes aegypti, que
também é vetor da febre amarela. Qualquer epidemia das duas doenças
está diretamente ligada à concentração do mosquito, ou seja, quanto
mais desses insetos, mais elas se farão presentes.
O Ae. aegypti surgiu na África (provavelmente na região nordeste)
e de lá espalhou-se para Ásia e Américas, principalmente através do
tráfego marítimo. No Brasil, chegou no século XVIII com as
embarcações que transportavam escravos, já que os ovos do mosquito
podem resistir, sem estar em contato com a água, por até um ano.
Em 1955, uma grande campanha realizada pela Organização
Pan-Americana de Saúde chegou a erradicar o Ae. aegypti do Brasil e
de diversos outros países americanos. No entanto, a campanha não foi
completa e o mosquito permaneceu presente em várias ilhas do Caribe,
Guianas, Suriname, Venezuela e sul dos Estados Unidos, de onde
voltou a espalhar-se. No fim da década de 70, o Brasil novamente
contava com a presença do vetor em suas principais metrópoles.
Hoje em dia, considera-se a erradicação do Ae. aegypti
praticamente impossível devido ao crescimento da população, ocupação
desordenada do ambiente e à falta de infra-estrutura dos grandes
centros urbanos. A industrialização também dificulta o enfrentamento
desse tipo de inseto, já que os novos produtos descartáveis por ela
produzidos (tais como copos e garrafas de plástico) são eliminados
de forma incorreta e acabam por transformar-se em possíveis focos
para a multiplicação do Ae. aegypti. Assim, o máximo que se pode
fazer é controlar a presença do mosquito.
O Ae. aegypti tem se caracterizado como um inseto de
comportamento estritamente urbano, sendo raro encontrar amostras de
seus ovos ou larvas em reservatórios de água nas matas. Mesmo assim,
macho e fêmea alimentam-se da seiva das plantas, presentes,
sobretudo, no interior das casas, apesar de só ela picar o homem em
busca de sangue para maturar os ovos. Em média, cada Ae. aegypti
vive em torno de 30 dias e a fêmea chega a colocar entre 150 e 200
ovos de cada vez. Ela é capaz de realizar inúmeras posturas no
decorrer de sua vida, já que copula com o macho uma única vez,
armazenando os espermatozóides em suas espermatecas (reservatórios
presentes dentro do aparelho reprodutor). Uma vez com o vírus da
dengue, a fêmea torna-se vetor permanente da doença e calcula-se que
haja uma probabilidade entre 30 e 40% de chances de suas crias já
nascerem também infectadas.
Os ovos não são postos na água, e sim milímetros acima de sua
superfície, em recipientes tais como latas e garrafas vazias, pneus,
calhas, caixas d'água descobertas, pratos de vasos de plantas ou
qualquer outro que possa armazenar água de chuva. Quando chove, o
nível da água sobe, entra em contato com os ovos que eclodem em
pouco mais de 30 minutos. Em um período que varia entre cinco e sete
dias, a larva passa por quatro fases até dar origem a um novo
mosquito.
Experiências demonstram que a melhor oportunidade para enfrentar
o Ae. aegypti se dá na fase larval, pois o mosquito tem apresentado
resistência aos inseticidas. A presença dos mosquitos depende muito
das condições climáticas (mais chuvas, mais mosquitos) e de
políticas públicas. Especialistas ainda consideram os guardas
sanitários a melhor maneira de controlar a presença do Ae. aegypti,
pois somente visitas periódicas feitas de casa em casa são
eficientes para combater o mosquito e ensinar a população a
enfrentar o inseto. Além disso, faz-se necessário um constante
monitoramento de terrenos baldios, casas abandonadas e quaisquer
outros logradouros que possam servir de possíveis focos para a
procriação do vetor do dengue.
Perguntas mais freqüentes (respondidas por Anthony
Guimarães):
1) Por que o DDT e a utilização de aviões e helicópteros (como já
ocorreu nos EUA) é eficiente para outros mosquitos e ineficiente
para combater o Ae. aegypti?
R: Nos EUA, e em outros lugares, o uso de aviões para pulverizar
inseticida destina-se ao controle de insetos, inclusive mosquitos,
que freqüentam rotineiramente ambientes extradomiciliares (fora das
casas). O Ae. aegypti permanece quase que exclusivamente dentro das
casas, onde inseticidas pulverizados de avião não atingem. Nos EUA o
controle visava o transmissor da Febre do Nilo, um mosquito do
gênero Culex e que não vive dentro das casas.
2) Qual o ambiente preferido pela fêmea. Em quais condições
(temperatura, ventos) ela não sobrevive ou não se torna ativa? Onde
elas são mais comumente encontradas?
R: As fêmeas e os machos (que geralmente acompanham as fêmeas)
ficam dentro das casas (sob mesas, cadeiras, armários etc.). A
temperatura ideal fica em torno dos 24 e 28 oC. Temperaturas acima
dos 32 oC e abaixo dos 18 oC costumam inibir a atividade do Ae.
aegypti e quando ficam acima dos 40 oC e abaixo dos 5 oC são
letais.
3) Há possibilidade de outra espécie de Aedes transmitir dengue?
Se existe, até aqui, o que impede isso de acontecer?
R: Sim. O Ae. albopictus também pode transmitir dengue. A
transmissão não é comum porque o Ae. albopictus não costuma
freqüentar o domicílio como o Ae. aegypti.
4) Das formas de prevenção (complexo B, borra de café, água
sanitária, levedo de cerveja, vela de andiroba, repelentes,
inseticida caseiro etc), quais são realmente eficientes?
R: Levedo de cerveja e complexo B não devem ser utilizados, pois,
nas dosagens capazes de afugentar os mosquitos, podem ser
prejudiciais à saúde. Borra de café pode ser eficiente dentro de uma
rotina periódica a cada dois dias. Água Sanitária não tem se
mostrado eficaz nas dosagens preconizadas (uma colher de chá para um
litro d'água), em altas concentrações pode matar a larva em 24h.
Vela de andiroba tem eficácia parcial e pode ser usada em ambientes
fechados com no máximo 12 metros quadrados. Repelentes e inseticidas
caseiros podem ser usados seguindo as recomendações da embalagem ou
recomendação médica no caso de crianças e pessoas sensíveis.
5) Existe algum meio natural para combater o Ae. aegypti? Tais
como vermes que parasitam as larvas, predadores naturais etc.
R: O mecanismo natural mais eficaz para o Ae. aegypti é o
bioinseticida BTI (Bacillus thuringiensis israelensis), que ataca a
larva do Ae. aegypti e pode ser utilizado em reservatórios
domésticos, inclusive caixa d'água. Predadores naturais (larvas e
ninfas de insetos, nematódeos, pequenos vertebrados), que também
atacam as larvas de mosquitos, não se criam em reservatórios
domésticos, onde estão as larvas do Ae. aegypti.
6) Até que ponto a utilização de venenos, como o DDT e os
larvicidas podem afetar o meio ambiente? Quais (se existirem) seus
efeitos colaterais?
R: Qualquer inseticida usado indiscriminadamente traz danos ao
meio ambiente. O contato direto e permanente com produtos químicos
pode ocasionar desequilíbrio ambiental e problemas a saúde do homem.
Por esse motivo o uso desses inseticidas é restrito aos órgãos
governamentais ou credenciados, que possuem equipes de técnicos
capazes de eleger a dosagem e o inseticida a ser utilizado.
7) O vírus causa problemas ao mosquito?
R: Não.
8) Como é o ciclo do vírus dentro do mosquito?
R: Para se tornar infeccioso ao homem o vírus passa por um
período de incubação no mosquito de 10 dias. Após essa fase o
mosquito estará infectado para o resto da vida e transmitirá o vírus
em todas as picadas que realizar.
9) Quais as principais linhas de pesquisa desenvolvidas na
Fiocruz em relação ao Aedes?
R: O Ae. aegypti talvez seja o mosquito mais bem estudado até
hoje. O seu controle está diretamente relacionado à eliminação dos
criadouros domésticos, considerando-se os conhecimentos existentes
sobre a sua biologia. No campo da entomologia (parte da ciência que
estuda os insetos), a Fiocruz vem desenvolvendo várias linhas de
pesquisa sobre a biologia e ecologia de mosquitos vetores de doenças
no Brasil:
1. Potencialidade de espécies silvestres transmissoras de
arboviroses e malária conviverem com o homem em áreas peri-urbanas,
rurais e turísticas.
2. O impacto causado pela construção de hidrelétricas, atividades
de mineração (inclusive garimpos clandestinos) e assentamento de
novos colonos ("sem terra") em áreas com alto risco de doenças
transmitidas por mosquitos (malária, febre amarela silvestre e
outras arboviroses).
3. Estudos sobre a biologia e ecologia de mosquitos em ambiente
silvestre (Parques Nacionais e Estaduais), visando fornecer
subsídios para o controle daqueles que eventualmente venham a
transmitir doenças ao homem.
Fonte:
Fiocruz